Viajar de veleiro



A maravilha de se viajar de veleiro é que basta que se decida ir para algum lugar, tudo que se tem que fazer é levantar a âncora,içar velas e ir embora.Essa sensação de liberdade é fabulosa,é quase como ter asas e voar livremente,basta bate-las.

Helio Setti Jr.

Tem que ir, ver e sentir!


"...Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu, para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor, e o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o seu próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver..."


Amir Klink


quinta-feira, 13 de junho de 2013

A viagem para Cabo Verde

 

Era para ser uma viagem sem muitas novidades, a não ser, o fato de que a faríamos no sentido contrário ao da quase totalidade dos velejadores. Pois não estaríamos vindo de Cabo Verde para Natal/RN, a favor das correntes e dos ventos, mas indo de Natal para Cabo Verde (CV), com esses elementos todos na cara.
A tripulação era um o Jorge, um português dono do barco, e eu. Ele com mais de 40 anos de experiência em delivery e eu com muita vontade de aprender. O barco, um veleiro modelo clássico de 28 pés, construído na Inglaterra, chamado Oliver.
Combinamos que eu só iria acompanhá-lo se o barco tivesse um bimini. Foi ai que começaram os problemas da viagem. O tal bimini demorou duas semanas para ficar pronto e a viagem, que estava marcada pra começar dia 17 de fevereiro 2013, só foi sair dia 04 de março.
Saímos no dia 04 de março pela manhã e já começamos com o vento na cara. A previsão dizia que o vento seria de través, mas ninguém avisou isso ao vento. Dia 05, no final da tarde, passamos por Fernando de Noronha e mudamos o rumo mais para o Norte. Dia 06, amanheceu com o vento já querendo desaparecer, o que ocorreu depois das 10h. Somente fomos saber o que era vento novamente, e fraco, depois do dia 18. Durante doze dias só ouvimos o barulho de motor e assistimos nosso diesel ir embora. Acreditávamos que depois disso, o vento viria com tudo e velejaríamos confortavelmente, e rápido, para Mindelo. Nossa surpresa foi grande quando o vento apareceu fraquinho, com ondas enormes e com curtos espaços entre elas. De onde vinham essas ondas se não tinha vento?
Assim foram muitos dias, com alternância de ondas, sem vento e com vento de 18 nós com rajadas de 23. Junte a tudo isso uma corrente que calculamos de 2 a 3 nós, contra obviamente. Traçamos dois rumos, um para Mindelo e outro para Praia, e tentaríamos o que ficasse mais fácil. Porém, não conseguíamos avançar acima de 330º nem abaixo de 90º, o que não nos levava para nenhum ponto.
O fato de não irmos a lugar nenhum tornou alguns dias angustiantes e nos assombrava a ideia das provisões acabarem. Teve uma semana que em quatro dias navegamos apenas três milhas para frente. Palavra que deu vontade de chorar, de pular no mar e ir embora a nado. Num Domingo velejamos muito o dia todo e na Segunda-Feira descobrimos que estávamos algumas milhas para trás. Foi um baixo astral que não dava vontade nem olhar um pra cara do outro, pois não conseguíamos explicação para o que estava acontecendo. Tinha dia que velejávamos muito bem o dia todo e a noite o vento parava e a corrente nos levava para trás. Outras vezes mudava o turno numa velejada boa à noite e navegávamos pra trás de dia.
Depois de 16 dias nosso combustível estava quase no fim e nossos suprimentos não estavam lá essas coisas. Quando passou um pesqueiro japonês chamado Shinryu Maru nº11 resolvemos pedir 50 litros diesel. Dissemos que nossos mantimentos estavam ficando escassos e precisávamos do combustível para chegar a Cabo Verde antes que acabassem. Não sei se eles não entenderam direito ou eram muito mais precavidos do que nos, mas deram 80 litros de diesel e um monte de comida e água, o que viria a ser de vital importância dias depois, pois consumimos todos os alimentos, o combustível e não conseguimos chegar. Nos últimos 11 dias só o que tínhamos para comer era o arroz que os japoneses haviam doado.  
Quando estávamos perto da ilha do Fogo, e com um mar virado, cruzamos com o ferryboat, que liga as ilhas, o Crioula, que nos indicou o Vale dos Cavaleiros, um Porto para descansar e esperar o mau tempo passar.
Esse Porto esta em construção e ainda não esta nas Cartas Náuticas, o que tornou difícil nossa entrada. Por ser um Porto para navios de cabotagem ele não tem estrutura para receber veleiros ou barcos de pequeno porte. Assim que ancoramos e nos preparamos para descansar, fomos avisados que deveríamos sair, pois estavam chegando dois navios. Na pressa de sair, pois os navios já estavam muito próximos, ao soltar a amarra, prendi dois dedos num passa cabo que me deu um belo susto, com a fratura de um e um corte no outro.
Antes de irmos ao hospital fomos dar entrada junto às autoridades. Como Vale dos Cavaleiros não é um Porto turístico, as autoridades não sabiam o que fazer e resolveram reter nossos passaportes e enviá-los para Praia, a capital do País, na ilha de São Tiago. Lá seria dada a entrada e depois os passaportes seriam enviados para Mindelo, na ilha de São Vicente, nosso próximo Porto.
Depois de medicado fomos conhecer a ilha do Fogo, que na verdade é um vulcão, um lugar maravilhoso com um visual que parece outro planeta, com muita lava derramada por todos os lados.
Em Fogo fica a cidade de São Filipe, muito linda, com um povo simpático como todo o povo caboverdiano.
Depois de esperarmos alguns dias, para evitar o risco de infecção nos meus ferimentos, abastecemos com diesel, de sobra, para irmos até Mindelo só no motor. Fizemos essa travessia em 34 horas.
Chegando a Mindelo as primeiras pessoas que encontramos foram o Alan e a Graça, ele francês e ela baiana, um casal que havia saído uma semana antes de nós, mas que tinha voltado um dia antes da nossa partida, pois haviam quebrado um dos estais. Ele nos contou que o concerto do estai durou quatorze dias e já fazia uma semana que estavam a nossa espera.
Foi bom encontrá-los, fizemos muitas caminhadas pela cidade e conhecemos muitos lugares juntos.
Depois de cinco dias já estava na hora de voltar ao Brasil, pois tinha feito reserva num voo que sairia de Mindelo para Praia, de Praia à Fortaleza e em seguida de Fortaleza para Porto Alegre, uma verdadeira maratona com duas noites para dormir em aeroportos. Só que na véspera da saída nossos passaportes ainda não tinham chegado a Mindelo, apesar de todos os dias irmos à Polícia Marítima e eles sempre dizendo que estavam a caminho. Como era véspera da viagem e os passaportes não terem chegado, e não houvesse mais tempo para vir, o chefe de polícia entrou em contato com Praia e me deu uma autorização para viajar e pegar o meu passaporte com o chefe de polícia de lá. Assim embarquei para Praia no dia 01 de Maio, feriado mundial. Lá chegando, perguntei como encontrar o chefe de polícia e informaram que por ser feriado somente seria possível no dia seguinte. Como meu voo somente sairia às 14 horas do dia seguinte, não vi problema em esperar. Dormi no aeroporto e no dia seguinte bem cedo fui caminhando ate o Porto, onde fui atendido por um sujeito que me pareceu ter levantado com o pé esquerdo e de cara foi dizendo o que todos tinham dito: Que eu tinha entrado ilegal no país dele, que estava errado e blábláblá. Depois veio dizer que o sujeito que era encarregado do meu passaporte estava num curso e que sairia depois das 14h30min e ai então ele iria procurar meus documentos. Eu disse que não podia ser assim, pois meu voo sairia às 14h20min e eu tinha que estar duas horas antes para o check-in. Ai ele se alterou, disse novamente que eu estava ilegal no país dele e que eu não iria sair naquele dia de jeito nenhum.
Falei que iria procurar a Embaixada Brasileira para resolver a situação. Pronto, o cara ficou possesso. Disse que procurasse a Embaixada e um advogado, pois iria complicar as coisas pro meu lado.
Sai dali meio no desespero e fui direto para a Embaixada, onde o Vice-cônsul, Sr. Romel Costa, me atendeu e já saiu telefonando e agitando contatos junto com sua secretária, Dona Maria José. Aliás, os dois parecem conhecer todo mundo em Praia ou até mesmo em toda Cabo Verde.
Logo ficamos sabendo que eu havia ido ao lugar errado, no Porto, pois meu passaporte estava no escritório do chefe da Polícia Marítima, o qual nos atendeu pessoalmente (o vice-cônsul, a secretária e eu) e pediu desculpas pelo mal entendido, mandando um de seus policiais nos acompanhar ate o Porto para carimbar minha entrada, o que desde o dia 16, quando o entreguei, ainda não tinha sido feito. 
Quando chegamos, o cara responsável pelo carimbo era exatamente aquele simpático da parte da manhã que para piorar, tinha ido almoçar em casa. O Sr. Romel foi busca-lo , no meio do almoço, para que carimbasse e assinasse o passaporte. O camarada fez o serviço pedindo desculpas pelo mal entendido. Mas eu achei que ele estava de muita má vontade e bem incomodado com a situação. Ele escrevia os dados nas fichas quase desenhando as letras de tão devagar, apesar de dizermos várias vezes da nossa pressa, pois já era mais de uma hora da tarde, e dona Zezé estar ligando para a empresa aérea, pedindo para segurarem o check-in. Saímos dali e ainda tivemos que levar o sujeito para terminar seu almoço e depois corremos para o aeroporto. Quando chegamos, Vice-cônsul, secretária, policial e eu, fizemos o check-in furando a fila e nos despedimos no portão de embarque. Fiquei esperando por alguns minutos e aproveitei para fazer umas compras no free shop. Quando mandaram embarcar, me dirigi ao avião e um rapaz ao meu lado falou: Antonio Carpes? Achei que fosse algum conhecido e respondi: Oi, eu mesmo. Tudo bem? Ele então me pediu que lhe entregasse o passaporte e se identificou como oficial da Polícia Judiciária.

Fui levado para a sede da Polícia Judiciária e colocado em uma sala onde por várias vezes tive que contar a história da minha viagem para vários agentes diferentes. Depois de um tempo, me levaram a presença do comandante daquela unidade que, pra variar, queria ouvir minha história e anotou tudo o que falei, repassando alguns pontos para ter certeza. Depois fui levado para outra sala, onde pediram licença para revistar minha bagagem, o que foi feito com cuidado e por um rapaz melhor em arrumar mala do que eu, pois no final, ficou mais organizada e com mais espaço que antes.
Durante todo esse tempo pedi que me deixassem ligar para minha esposa, pois quando não desembarcasse e não desse notícias, ela ficaria muito preocupada, ou que então me deixassem ligar para a Embaixada do Brasil, já que eles haviam me levado ao aeroporto e acreditavam que estava tudo bem. O tempo todo eles disseram que eu não ficasse preocupado, pois já tinham entrado em contato com a Embaixada, que isso era coisa de nível superior e que o chefe de polícia tinha falado com o pessoal de lá. Pediram que eu ficasse tranquilo, como se fosse possível, e que eu não estava detido, mas somente prestando um esclarecimento. Ah bom! Então eu posso ir embora quando quiser? Pode, mas é bom esperar só mais um pouquinho. 
Como eu iria querer ir embora com tanta gentileza.
Enquanto eu era interrogado ali em Praia, em Mindelo eles estavam atrás do Jorge, meu companheiro de viagem, e devem ter feito o mesmo procedimento com ele, pois no dia seguinte, quando nos falamos, ele disse que também tinha tomado um chá de banco e que as autoridades tinham tirado o barco fora da água e cortado o casco em cima da quilha e por baixo da linha d’agua, além de fazerem vários furos para ver se não tinha um casco duplo.
Lá pelas 21h o comandante reapareceu e disse que ia me levar para telefonar para minha esposa, depois me levou para jantar e encontrar uma pousada, pediu que eu me apresentasse no dia seguinte, novamente eu disse que iria primeiro na Embaixada Brasileira, com o que ele concordou.
Acordei cedo e me mandei pra Embaixada, quando cheguei o vice-cônsul deu um pulo.
-- Que tu faz aqui cara, te coloquei no avião ontem?
--Eh, mas eles me tiraram!
Contei a historia toda e ele pegou o telefone e saiu cobrando explicações das autoridades. Disseram para que ficasse na Embaixada e que se fosse preciso, ligariam para eu me apresentar novamente à polícia.

A partir dai não me restou outra opção, a não ser esperar mais uma semana pelo outro voo para o Brasil. E como diz aquela máxima: Se te derem um limão faça uma limonada. Aproveitei para fazer novos amigos e conhecer Praia, que eu havia passado direto sem tempo de visitá-la.
Através do Sr. Romel, que me cedeu um apartamento que ele havia alugado para o filho, fiquei conhecendo outro Jorge, o Jojó, dono do bar Celebridades, onde conheci também um monte de gente bacana que era frequentadora do local.
No domingo fui convidado para conhecer o interior da ilha, onde, além das paisagens lindas, tem uma infinidade de pontos na estrada onde se come, cachupa (um prato local, tipo feijoada, com dois tipos de feijão, milho e carne de porco), porco assado e frito, torresmo em pedaços enormes e toma-se uma cervejinha e um grogue, que é a cachaça local.
Quando chegou o dia de vir embora, o Vice-cônsul ainda fez questão de me presentear no almoço com um coelho limpo e temperado por ele.
Por fim, a ilha em que eu iria passar sem ter tempo de conhecer, graças ao incidente com a polícia, foi a que eu mais aproveitei e fiz mais amizades.
Foi uma ótima limonada!
Queria deixar aqui minha ótima impressão de Cabo Verde e de seu povo, o qual por onde passei fui super bem recebido. E deixar um agradecimento especial aos amigos que fiz em Praia, pois foi o momento mais difícil e onde recebi um apoio fraternal de todos.
Queria dizer também que: Se alguém tiver um barco em Natal e queira levar para Cabo Verde, lembre-se de mim, mas não pense em me convidar.