Viajar de veleiro



A maravilha de se viajar de veleiro é que basta que se decida ir para algum lugar, tudo que se tem que fazer é levantar a âncora,içar velas e ir embora.Essa sensação de liberdade é fabulosa,é quase como ter asas e voar livremente,basta bate-las.

Helio Setti Jr.

Tem que ir, ver e sentir!


"...Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu, para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor, e o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o seu próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver..."


Amir Klink


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Falcaças, "Ditty Bags", Marinharia

Encontrei esse post no blog CATAMARAN SAMEJ, do velejador Alex Brito, que achei muito interessante e quis compartilhar. Pois nos dias de hoje não se vê com muita frequência velejadores que saibam fazer esses trabalhos tão comuns para os homens do mar do passado.

Na vida moderna de velejar, aprender a costurar ficou fora de moda. A maioria dos novos comandantes não sentem a necessidade de aprender a costurar uma vela rasgada (basta comprar outra, basta acionar a velaria), aprender a fazer a falcaça num cabo. Para estes, basta saber o Lais de Guia e tá bom. São comandantes de 1 nó só. 

Boa parte só imagina ser necessário aprender tais coisas para aqueles cruzeiristas de grandes travessias e com pouca grana. Mas isso não é verdade! Pergunte se saber estas coisas não é importante para um bom navegador ou velejador, como Amyr Klink, Família Schurmann, Aleixo Belov, Geraldo Luiz Miranda de Barros, João G. Schimidt. Imagine se Éric Tabarly não sabia costurar, falcaçar! É como imaginar alguém gastar muito dinheiro num carrão e não saber trocar um pneu. - E quando acontecer? E aí meu irmão? Quem acode? Adaptando um frase que se diz no exército: - "O mar é lugar onde filho chora e mãe não houve"!


Repare que a pergunta não é "se" vai acontecer (algum imprevisto que vai exigir de você conhecimentos de marinharia), mas "quando". Por quê essa situação VAI acontecer com todos.  - Todos têm histórias para contar. 

 (Fonte: www.svsnowgoose.com)

Todos sabem que uma vez na água, muitos tipos de imprevistos podem acontecer, tanto pelo acaso, ou não. Podendo acontecer com qualquer um, porém vão tender a ocorrer mais em barcos usados (mais velhos), com velas com mais de 5 anos, em ventos mais fortes, com comandantes mais inexperientes ou imprudentes. 
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Então é mais seguro saber se virar numa hora de aperto. Despertar seu lado "MacGyver", e, como diz aqui na Bahia, "se sair" de problema, com o que tem nas mãos. Assim, não custa nada ter umas 2 boas caixas de ferramentas, com moitões, manilhas, furadeira, braçadeiras, fita isolante, fita gomada, fita emborrachada (de auto-fusão), placas de madeira, pedaços de lona, pedaços de cabos de várias bitolas, fios, alicate corta-cabos. Mais ainda os barcos que fazem mais grandes travessias, mas também é útil saber mesmo se seu barco não saia da mesma baía.


Deixar de estar mais seguro, mais preparado é uma bobagem. Aprender, estudar, aumenta a longevidade cerebral, faz com que você fique bem velho e ainda lúcido, com boa memória, reconhecendo tudo e esperto até os 90 anos. Conhecimento não pesa! Não é um fardo! Nem ter uma "Ditty Bag" ou caixa de ferramentas pesa tanto ao ponto de perder uma regata ou andar devagar. Não existe isso de barco mais rápido e barco mais lento. Na verdade o que existe são tendências. O que faz um barco ganhar uma regata é você retirar o supérfulo (para deixar ele bem leve), ter uma equipe (tripulação) bem treinada, ter boas velas, ter um bom proeiro (para um rápido e bom manuseio e regulagem de Balão, velas, etc), ter um bom timoneiro (boa estratégia), mas acima de tudo espírito de equipe (para não deixar a moral se abater, manter o ânimo, trabalhar coordenadamente). 

Enfim, com uma sabedoria a mais (por ter aprendido marinharia e estar bem equipado) você só vai ter um velejar (cruzeirando ou em regata) mais tranquilo, por saber que quando ocorrer um imprevisto a chance de vc resolver ele na tranquilidade é grande. Depois ele só vai virar mais uma boa história e fonte de boas risadas. 


Assim, 
vamos à algumas dicas e aprendizados.

1) Dar um nó num cabo reduz sua resistência.

Em alguns casos isso chega à 50% (mais frágil, mais fácil de se romper). Portanto, quando uma alça ou uma união permanente de 2 cabos similares é necessária o melhor a fazer é usarmos uma "costura" (que só enfraquece o cabo em 10%). -> Temos que aprender como fazer. Mas como começa?
-Começa você fazendo a sua "Ditty Bag".


"Ditty Bag" = a "caixa de costura" do velejador
  (Fonte:  www.http://www.jasperandbailey.com)


Para fazer uma basta uma lona resistente, agulha e linha grossa, um pedaço de cabo,
boa habilidade, algum tempinho...
  (Fonte:  www.frayedknotarts.com)
   (Fonte:  www.frayedknotarts.com)

 A "Ditty Bag" é cheia de divisórias e organizada 
(não é um saco de tralha, é uma sacola de costura organizada)

Antigamente saber de Falcaças, nós, valia como currículo para ser contratado como Marinheiro.

Segue abaixo
Marinheiros criando (costurando) suas "Ditty Bags"

 Repucho ou "Sewing Palm" (proteção de couro p/ palma da mão, p/ costurar)
(Fonte: http://ropeandcanvas.blogspot.com.br)

  Repucho mostrando detalhe da proteção de metal,
como um dedal, para apoio da agulha na costura)
(Fonte: http://ropeandcanvas.blogspot.com.br)

Outro modelo mais simples

Para mão Dir e para a Esq (para canhoto)
(Fonte:  tundraleather.ca)

Como se deve apoiar e manusear a agulha

Como usar


Espicha (de madeira): usada para abrir caminho entre os cordões de um cabo, para fazer uma costura, ou desapertar manilhas, folgar

 Conteúdo da "Ditty Bag": lanterna, martelo, alicate multi-função, chave inglesa, faca, lanolina anidra, fita isolante, isqueiro, cera (para passar na agulha e esta correr melhor), linha de dacron, linha de nylon, 
agulhas triangulares, espicha, pedaço de fio de arame de aço)


Os antigos marinheiros, os grandes cruzeiristas e regatistas, sempre vão valorizar uma boa marinharia, pois pode um dia ainda vai te tirar de uma enrascada (como uma vela rasgada, por exemplo). Não estou querendo dizer que se você estiver perto da costa, ou com outra vela disponível, ou ainda podendo ligar o motor - "Ô coisa horrível, navega a motor" - você deva ir costurar sua vela sozinho e voltar a usá-la sozinho. Nem estou dizendo que não deve mandar consertar sua vela com quem entende, um bom Mestre de Velaria, existem algumas boas empresas no mercado para isso. O que estou dizendo é que sabedoria sobre o mar, velejar e marinharia (ainda que antiga) sempre é benéfica. E acho que todo velejador deve entender alguma coisa dessas artes que os antigos eram tão bons.


Imagine uma vela rasgar no meio do mar, distante de tudo. Eis um exemplo de como a costura certa costura que pode salvar o olhal do cunho de uma vela (pelo menos "quebrar um galho", até um reparo definitivo).





 (Fonte:  www.frayedknotarts.com)

Antigos, fazendo uma vela.
 (Fonte:  www.frayedknotarts.com)

 Velaria antiga




Falcaças - feitas para não descosturar a ponta do cabo:

(Fonte:  pt.wikipedia.org)



Boa maneira de se içar um barril!