Viajar de veleiro



A maravilha de se viajar de veleiro é que basta que se decida ir para algum lugar, tudo que se tem que fazer é levantar a âncora,içar velas e ir embora.Essa sensação de liberdade é fabulosa,é quase como ter asas e voar livremente,basta bate-las.

Helio Setti Jr.

Tem que ir, ver e sentir!


"...Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu, para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor, e o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o seu próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver..."


Amir Klink


quinta-feira, 14 de maio de 2015

O Maitairoa ainda vive

A EMOCIONANTE HISTÓRIA DO VELEIRO QUE SE TORNOU UM MARCO NA HISTÓRIA DA CONSTRUÇÃO AMADORA NO BRASIL

Roberto Barros
Foi revelado no final de 2013 o discurso que a rainha da Inglaterra tinha pronto para ser lido sobre a terceira guerra mundial. Esse discurso havia sido escrito há exatamente trinta anos — tempo que documentos estratégicos perdem o status de segredo de estado no Reino Unido. Naquele momento, a guerra fria atingia seu clímax, e o planeta estava ao alcance de um apertar de botão para ser inexoravelmente destruído pela estupidez humana. Isso é história, mas felizmente surgiu uma luz no fim do túnel e a catástrofe não se materializou.
Era inevitável que esse clima tão sombrio pairando sobre os espíritos da população mundial tivesse uma influência no comportamento das pessoas daquele tempo. Como reflexo dessa insegurança, alguns construíram abrigos nucleares para usufruir um pouco mais a vida depois de o pior ter acontecido, esperando poder levar seus entes queridos e o que mais prezavam para esses abrigos. Outros preferiram torrar seu patrimônio e aproveitar a vida enquanto era tempo.
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Essa foto foi tirada a umas duas mil milhas a leste da Patagônia, mais ou menos na latitude de Mar Del Plata, durante uma calmaria. Colocamos o caíque na água e nosso tripulante Roberto Allan Fuchs afastou-se do barco para tirar a fotografia. Sou eu quem está no leme e Eileen está a meu lado.
Minha própria história, no entanto, teve um foco diferente. Construí um veleiro oceânico capaz velejar meses seguidos sem precisar ser abastecido, de forma que minha família e eu pudéssemos desfrutar de algumas semanas a mais fazendo o que mais gostávamos: velejar na imensidão do oceano. Morávamos no Rio de Janeiro, um lugar que, por estar fora do centro da disputa política, provavelmente teria alguns dias a mais de sobrevivência. Mantinha o barco permanentemente abastecido para seis meses em alto mar e meu plano era navegar rumo ao Oceano Austral, mantendo contato com o que tivesse sobrado do mundo exterior, se ainda chegasse algum sinal, por meio de um receptor de ondas curtas e do rádio SSB de bordo.
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Para mim, aquele era um plano emocionante! Estaríamos gozando a vida um pouco mais enquanto talvez bilhões de seres humanos estivessem morrendo. Quando chegasse nossa hora, se chegasse naquela ocasião, teríamos um sorriso irônico em nossos rostos, sendo provavelmente uns dos últimos a conhecer a história de como teve fim a vida em um planeta azul destruído pela arrogância de uma espécie que colocava interesses egoísticos acima de qualquer coisa. Então, porque não dançar conforme a música, se aquelas eram as regras do jogo?
De certa forma, éramos pioneiros no processo de globalização. Sou brasileiro, minha mulher, Eileen, inglesa, e minha filha, Astrid, nativa das ilhas dos mares do Sul, já que nasceu no Tahiti, no fim da década de 1969, quando realizávamos um cruzeiro pelo Pacífico, tendo partido dois anos antes do Rio em um barco de 25 pés e sem motor auxiliar! (Essa história é contada no livro “Do Rio à Polinésia” o primeiro de aventura náutica escrito por autor brasileiro). Tínhamos sentido o gostinho da maçã proibida, a sensação de liberdade proporcionada por nosso estilo de vida.
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Maitairoa, o barco projetado para ser à prova de explosão nuclear, no estado em que se encontra nos dias de hoje, trinta anos após seu lançamento.
Ser carioca é um privilégio. Afinal, o Rio é um dos lugares mais bonitos do mundo, onde montanhas cobertas de floresta tropical se juntam ao mar, formando lindas praias nesse encontro, como Copacabana e Ipanema, os berços da Bossa Nova e do biquíni fio dental. Na verdade, não queríamos ir embora, mas seria intolerável imaginar esse lugar tão privilegiado sendo retorcido por explosões nucleares.
Em junho de 1983, o Maitairoa, um veleiro de cruzeiro construído para o day after, foi lançado ao mar na Marina da Glória. Meu sonho afinal se tornara realidade. Desejávamos que nossas preocupações em relação ao apocalipse fossem pura fantasia, e que a guerra nuclear nunca iria acontecer, mas por via das dúvidas nos sentíamos preparados para o pior. Como o pior não aconteceu, o prêmio pelo esforço de ter construído o barco preparado para o juízo final foi possuir um veleiro pronto para ir a qualquer lugar. E o Maitairoa nunca nos decepcionou.
Em fevereiro de 1985, quando a Guerra Fria já não estava mais tão fria assim, a família resolveu tirar proveito do trabalho de ter construído o barco acima de qualquer suspeita. Decidimos cruzar o Atlântico do Rio até Cape Town, onde mora a irmã de Eileen, mas agora com os espíritos bem mais leves. Maitairoa significa “tudo bem” em polinésio, uma das primeiras palavras que aprendemos quando moramos no Tahiti, nos anos 1960. E não é que o barco sempre fez por merecer esse nome?
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Em uma noite de tempestade, empurrado por uma forte corrente de maré, o Maitairoa encalhou em uma praia deserta no arquipélago das Falkland/Malvinas.
Na travessia de ida, a primeira a ser realizada por um veleiro de recreio com bandeira brasileira, fizemos a volta completa da Ilha Inaccessible, uma experiência tipo livro de ficção de Julio Verne. Passamos tão perto do povoado de Edimburgo dos Sete Mares, em Tristão da Cunha, que deu para acenar para um local que estava trabalhando na plantação de batatas e receber sua retribuição ao aceno. Só não ancoramos porque o barco, um veleiro de dupla proa praticamente incapaz de planar, estava surfando a sete nós em árvore seca.
Em Cape Town, passamos dois meses na casa da cunhada, deixando o barco estacionado no Royal Cape Yacht Club. Como chegamos de madrugada e não tínhamos avisado sobre a viagem com a intenção de não deixá-la preocupada, quase a matamos de susto telefonando altas horas da matina dizendo que estávamos lá.
Após umas férias adoráveis, já era mais do que urgente empreender a viagem de volta. Afinal, era o ano do vestibular de nossa filha, Astrid, e, na melhor das hipóteses, estaríamos de volta em maio. Na ida tivemos a companhia de dois amigos, Max e Mário Hammers, que tiveram de voltar de avião por compromissos de trabalho. Com isso, a tripulação era apenas a família, mais a gata Mimi, o que para um veleiro de trinta pés era um número de passageiros mais adequado. Se a ida havia sido dura e cansativa, a volta foi um passeio, um sonho para qualquer cruzeirista. Passamos uma semana inesquecível na ilha de Santa Helena, um lugar surpreendente por sua beleza, sua história, e seu relativo isolamento, pois naquela época ainda não tinha aeroporto. De Santa Helena partimos para a perna final da viagem, passando colado a Martim Vaz, aquelas pedras no meio de lugar nenhum achadas com precisão pelo sextante de plástico Davis, o instrumento que tínhamos para determinar nossa posição — gps ainda não existia em 1985. Depois foi uma estirada curta até a Ilha da Trindade, quando também passamos raspando às ostras, achando o lugar tão exótico que prometemos voltar lá em breve.
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O encalhe gerou uma operação de salvamento emocionante. Com a ajuda do exército britânico, das autoridades locais e do pessoal das fazendas, o barco flutuou de novo praticamente sem sofrer qualquer dano.
Chegando ao Rio, não conseguíamos nos esquecer das aventuras fantásticas que tínhamos vivido a bordo, e em umas férias não muito distantes de nosso retorno, saímos rumo à Trindade, o lugar que prometêramos voltar, de lá seguindo para Salvador, voltando ao Rio com uma escala inesquecível no Parque Nacional de Abrolhos, onde passamos a maior parte do tempo em baixo d’água.
A próxima grande aventura foi uma viagem rumo ao Oceano Austral, quando o Maitairoa sofreu um encalhe em uma remota praia das Ilhas Falkland/Malvinas, sobrevivendo inteirinho, um episódio digno de uma novela de Jack London. Os acontecimentos nessa ocasião foram tão inusitados, que ao retornar, com a ajuda do amigo Roberto Allan Fuchs, tripulante nessa expedição, escrevemos a quatro mãos o livro: “As Fantásticas Aventuras do Maitairoa”.
De volta à rotina, ficou evidente que eu precisava trabalhar mais e viajar menos para garantir a sobrevivência da família. Foi aí que foi criei o escritório Roberto Barros Yacht Design. Em 2007, quando nossa empresa transferiu-se do Rio para Perth, Austrália Ocidental, rebatizamos de B & G Yacht Design.   
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Depois do acidente, o barco empreendeu uma viagem de três mil milhas sem escalas de Port Stanley até o Rio de Janeiro, tendo ocorrido nessa passagem uma colisão frontal com um cachalote sem causar dano algum ao Maitairoa.
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Vestígios da guerra. Eileen sentada na grama, Roberto Fuchs, eu, uma policial inglesa que ficou nossa amiga e Astrid tendo ao lado um campo minado. Os pinguins são muito leves para detonar as minas. Forma radical de preservar o meio ambiente!
A necessidade de estar sempre experimentando novas ideias nos fez vender o Maitairoa para tentar um novo projeto, o MC28, o qual também pretendia construir um para uso da família, incorporando ao projeto algumas lições que o velho de guerra Maitairoa havia nos ensinado. O barco foi vendido para uma boa amiga nossa, a física argentina Sandra Sautu, que realizou uma longa viagem a bordo do Maitairoa, indo para o Caribe, Açores e Mediterrâneo. Depois de passar um tempo em Trieste, onde trabalhou em um conceituado laboratório de física, Sandra navegou para a Riviera Francesa, onde mora a bordo até os dias de hoje em companhia de um casal de filhos, nascidos a bordo e ninados pelo balançar das ondas. O nosso novo barco, o MC28 Fiu, tornou-se um dos maiores sucessos da carreira de nosso escritório, mas o Maitairoa será sempre lembrado por nossa família como o barco projetado para o “day after”.
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Calypso, a filha de nossa amiga Sandra, foi concebida na ilha grega onde Ulisses iniciou a odisseia. Maitairoa é o lugar que ela pode chamar de lar. 
O barco de sete vidas agora estacionado em uma marina na Riviera Francesa.
Sandra deixou o Rio a bordo do Maitairoa com destino ao Mediterrâneo. Hoje, vive na França em companhia de seu casal de filhos, Calypso e Sansom.
Roberto Barros, o “Cabinho”, é projetista e um dos maiores especialistas em construção amadora do Brasil
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