Viajar de veleiro



A maravilha de se viajar de veleiro é que basta que se decida ir para algum lugar, tudo que se tem que fazer é levantar a âncora,içar velas e ir embora.Essa sensação de liberdade é fabulosa,é quase como ter asas e voar livremente,basta bate-las.

Helio Setti Jr.

Tem que ir, ver e sentir!


"...Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu, para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor, e o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o seu próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver..."


Amir Klink


sábado, 3 de julho de 2010

Travessia Sint Maarten/Açores -a bordo do EPHÉMEROS

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O que fazer durante quase 19 dias a bordo de um barco com espaço restrito, no meio do nada, rodeado de céu e mar? Será que é monótono? Dá vontade de saltar do barco? Ficamos aborrecidos e impacientes?
Nada disso. Vejam como a coisa funciona:




O turno de 6:00 as 8:00 é feito pelo capitão. Com o dia já claro e os demais tripulantes dormindo, ele aproveita para escrever o diário de bordo.


Por volta das 8:00, todos estão acordados e começa o movimento na cozinha com o café da manhã, normalmente uma fruta, leite ou yogurte com sucrilhos e o que acorda mais inspirado toma a iniciativa e prepara uma surpresa para os demais, tipo misto quente ou presunto com ovos e mussarela fresca.


Após o café nos reunimos no cockpit, complementamos o diário de bordo com as sugestões de cada um e normalmente rola um papo até as 9:00 quando ligamos o SSB para o contato matinal com os demais barcos da nossa flotilha. Na primeira parte (frequêcia 4.080,0 kHz), cada barco informa sua posição e condições de navegação. Na segunda parte (frequência 4.146,0 kHz) falamos de meteorologia, estratégia de navegação de cada um e batemos um papo mais informal.


Na sequência, a hora mais esperada do dia, ligar o Iridium para matar a saudade das esposas e dar notícias da nossa navegação. Pena que a ligação é curta, mas ouvir a voz delas melhora muito o nosso astral.


Com o Iridium ainda em mãos, baixamos a previsão do tempo (arquivo GRIB), avaliamos os dados e discutimos a estratégia de navegação para os próximos dias.


Já são mais ou menos 10:00 da manhã, hora de passear pelo convés, fazer um ajuste fino das velas, pegar um pouco de sol, documentar a viagem com fotos e vídeo, ler um pouco, checar o estado das baterias, visitar a casa de máquinas para verificar o nível de óleo, filtro Racor, eventuais vazamentos, etc.


E o almoço? Já passa das 11:00! Cardápio da Celinha e Aline na mão, nos deparamos com uma das mais difíceis decisões do dia: o que tirar do freezer? A decisão só é tomada após uma votação. O capitão vota por último, claro.


O período que antecede o almoço é utilizado de diversa formas. Para aqueles com deficit de sono, por causa do rodízio da noite (fazemos turno de 2 horas cada), é hora de uma soneca. Para aqueles com mais disposição as opções são: faxina (passar um aspirador no interior e no cockpit, sacudir os tapetes, uma limpeza básica no banheiro, etc.), manutenção no barco, transferência de Diesel das bombonas para o tanque, pescaria, etc.


E aí já está na hora de preparar o almoço. Cada dia um voluntário se apresenta expontaneamente e vai para a cozinha. A refeição é feita no cockpit apreciando a natureza que nos rodeia.


Louça lavada, é hora de iniciar nossa maratona radiofônica no SSB. Iniciamos as 14:30 com recebimento dos faxes meteorolóligicos do NOAA, as 15:30 tem o Herb, as 17:00 contato com Luar e Planckton, as 18:00 contato com a nossa flotilha, e as 18:30 um papo com Miguel. E assim a tarde passa num piscar de olhos.


Hora do lanche que ninguém é de ferro. Sopa, cachorro quente, omelete, misto quente, crepes de queijo ou carne, etc. Opções é que não faltam.


Após o lanche, todos para o chuveiro. Um aroma de shampoo e sabonete invade o barco.


Já são 20:00. Hora do turno do Eduardo. Jens e o capitão vão dormir para poder encarar o rodízio da noite.


Nas trocas de turno, quem está saindo acorda a próxima “vítima” e passa para ela as condições de navegação, se existe alguma embarcação no horizonte e se aconteceu algum fato relevante.


As funções básicas de quem está no turno são:


- Conferir constantemente se há alguma embarcação no horizonte e, se houver, avaliar possivel risco de aproximação perigosa. Neste caso, manobrar o barco para alterar o rumo,


- Avaliar as condições de mar e mudanças na direção e velocidade do vento, ajustando rumo e velas, se necessário,


- Conferir se o rumo do barco está coerente com a rota traçada, ajustando se necessário,


- Avaliar se existem condições meteorológicas desfavoráveis, por exemplo pirajás (a noite podem ser identificados no radar) e ajustar as velas, se houver necessidade,


Se tudo estiver tranquilo, coloca-se uma boa música e embarca-se numa incrível viagem interior.


Como vocês podem ver, existe uma rotina a bordo que preenche o nosso tempo e inibe a ansiedade da chegada. E assim, rapidamente os dias passam.
Postado no blog do veleiro Ephemeros