Viajar de veleiro



A maravilha de se viajar de veleiro é que basta que se decida ir para algum lugar, tudo que se tem que fazer é levantar a âncora,içar velas e ir embora.Essa sensação de liberdade é fabulosa,é quase como ter asas e voar livremente,basta bate-las.

Helio Setti Jr.

Tem que ir, ver e sentir!


"...Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu, para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor, e o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o seu próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver..."


Amir Klink


sábado, 3 de março de 2012

Velejador brasileiro de 62 anos contorna o planeta em apenas 11 meses (e sozinho)

O veleiro Caroll
Foto: Arquivo pessoal

Ser o velejador brasileiro mais velho a dar uma volta ao mundo, inaugurar uma nova rota de circum-navegação do planeta – diminuindo o tempo de 2 anos para 11 meses de viagem –, viajar sozinho num barco de 12 metros, superar um câncer. Essas são os feitos de Raimundo Nascimento, de 62 anos, ao completar a viagem de sua vida a bordo do Caroll. Ele partiu do Rio de Janeiro em 23 de abril de 2011 e chegou na última terça, 28 de fevereiro.


Qual foi a sua estratégia para conseguir completar a circum-navegação em menos de um ano?
Em geral, os velejadores levam dois anos para dar a volta ao mundo por outro trajeto. O que eu fiz é um recorde [entre os brasileiros], ninguém fez esse caminho ainda, nem com essa velocidade. Têm pessoas que fizeram um percurso parecido, mas foram para Bali [Indonésia], por exemplo, e de lá para Cape Town, sem passar por Durban [ambos locais na África]. Minha viagem é a primeira.


Qual foi o seu roteiro?
O Rio de Janeiro foi o ponto de partida. De lá fui até o Recife e depois para Granada, no Caribe. Então fui para Colon (Panamá), atravessei o canal e segui para a Polinésia Francesa, até a Ilha de Nuku Hiva. De lá segui para o Tahiti, depois Samoa Americana e Thursday Island, no estreito de Horn, entre Papua Nova Guiné e Austrália. Continuei pela costa australiana até Cocos Keeling, já no Índico. Depois Ilhas Maurício, perto de Madagasgar. Então até uma ilha francesa chamada Reunion, que é relativamente perto, e de lá parti para Durban, na África do Sul. Depois para Port Elizabeth e Cape Town, ainda África. E, finalmente, Rio de Janeiro, somando aproximadamente 25 mil milhas de navegação.


Você passou algum perrengue forte no caminho?
Eu fui abordado por alguns pescadores indonésios, que estava querendo entrar no barco. Três deles estavam mascarados e um sem máscara. Eu me assustei muito com aquilo. Eles estavam me observando e perceberam que eu estava sozinho no barco, então me pediram para eu parar. Depois, eu conversei com um policial australiano, que disse que eles levariam algumas coisas do meu barco, mas não iriam me fazer mal. Mas eu criei uma paranoia em relação a barcos pesqueiros pequenos... quando eu via um, já fugia para o outro lado.


Como é a sua embarcação, a Caroll?
Esse modelo de barco tem uma quilha retrátil, exatamente para facilitar a navegação nas ilhas polinésias, que normalmente possuem partes de recife muito rasas [a quilha móvel permite variar o calado (fundo do barco) entre 82 centímetros e 2,43 metros de comprimento]. A outra finalidade é dar mais estabilidade quando a quilha é abaixada. Eu peguei uma tempestade no sul de Madagascar e o comportamento do barco foi incrível. Com ventos de até 80 quilômetros por hora, a performance da embarcação me deu muita confiança e orgulho.


O que mais exigiu de você durante a viagem, tecnicamente falando?
Eu não tinha experiência em viagens longas. E quando você viaja por um período tão grande, pega tempestades e passa por algumas dificuldades. Eu tinha me preparado por meio de leitura de livros, a maioria de autores estrangeiros, e acho que isso me deixou tecnicamente preparado. Mas, todos os dias eu aprendia uma lição nova, de como fazer o barco render, como velejar melhor. Consegui isso através de meu próprio esforço.


Quanto você gastou na viagem? Teve patrocínio?
Eu levei cinco anos construindo o barco, que custou aproximadamente 600 mil reias. Na viagem toda, eu gastei pouco menos de 80 mil reais. Foi a minha esposa que me ajudou a pagar. Apesar de ser contra a viagem, ela terminou contribuindo.


Sua esposa foi contra a viagem? Como ela lidou com isso?
Uma viagem dessas envolve muitos riscos e se tem a sensação de abandono, de ter ficado sozinha. É uma situação difícil, mas creio que, com a volta, tudo isso será contornado. Acho que a maior preocupação dela era com a minha segurança, primeiro por causa da idade e depois pelo fato de eu ter sofrido um câncer em 2009. Mas, para mim, a viagem era importante como superação e enriquecimento espiritual.


E você viajou sozinho?
Sim. Eu fiz questão de registrar em todos os portos as minhas entradas e saídas como solitário. Agora também vou sozinho para a Ilhabela [no litoral norte paulista], para fechar a viagem, porque meu barco fica guardado lá. Volto na quinta [1º de março] e faço uma festa com amigos e família.

Por Pedro Sibahi