Viajar de veleiro



A maravilha de se viajar de veleiro é que basta que se decida ir para algum lugar, tudo que se tem que fazer é levantar a âncora,içar velas e ir embora.Essa sensação de liberdade é fabulosa,é quase como ter asas e voar livremente,basta bate-las.

Helio Setti Jr.

Tem que ir, ver e sentir!


"...Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu, para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor, e o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o seu próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver..."


Amir Klink


domingo, 29 de janeiro de 2012

É possível salvar o navio de cruzeiros Costa Concordia?

Acabo de descobrir um blog muito interessante, o Blog Mercante, do qual tirei este artigo escrito por um cara que me pareceu muito bom chamado Erik Azevedo.

Neste artigo vamos mostrar o que especialistas já fizeram em outas situações

Enquanto ainda buscam por corpos desaparecidos no interior do Costa Concordia, e também investigam todos os fatos que causaram este lamentável acidente; equipes de profissionais especializados em “salvar” navios acidentados, já começaram os trabalhos para tentar retirar o navio inteiro se possível deste lajeiro. Já começaram a bombear o óleo nos tanques, oque não é uma tarefa simples em um navio que esta inclinado quase 90°, e tem mais de 112 mil toneladas.

Desde à muito tempo existem empresas especializadas em resgatar navios que vão para as pedras, ou emborcam durante tempestades, encalham em bancos de areia, incendeiam, ou cargas correm nos porões, e também vazamentos de óleo. Isto remonta à mais de 100 anos.

Holandeses e cowboys

Leia mais

Os maiores especialistas no assunto tradicionalmente são os holandeses, este povo já luta à séculos contra o avanço do mar nas terras baixas de seu país, e por isso aprenderam a usar o mar ao seu favor, devido à esta intimidade com o trabalho braçal, duro e perigoso que é lidar diretamente com o mar, este pessoal foi com o tempo desenvolvendo técnicas e tecnologias e muitas são improvisadas no local, para salvar embarcações dadas como perdidas.

O artigo já publicado aqui sobre o encalhe do navio tanque Torrey Canyon próximo à Inglaterra mostra os desafios que uma equipe destas enfrentou, porem neste caso o navio foi totalmente perdido, mas a equipe fez tudo ao alcance para tentar alcançar o prêmio(seguro).

A maior empresa do ramo ainda é a Smit Salvage, porem ela não é a única no ramo, existem outras empresas e já existiram outras também no passado, e também algumas que hoje foram compradas por novos grupos, outras são especializadas apenas em rebocagem e alugam seus rebocadores para empresas de salvamento com maior especialização como a ITC da holanda que tem frota de embarcações dedicadas à isso. A maior nas Américas é a TITAN Salvage, que atuou em muitos salvamentos de navios no Brasil; como a retirada de descarregadores de navios que caíram ao mar, na retirada do VLOC Weser Ore quando encalhou no Porto de Tubarão e outros grandes projetos em parceria com a Superpesa. Estas empresas as vezes trabalham em conjunto, pois em algumas operações é necessário a união de esforços.

Tipos de salvamento

São vários os tipos de salvamento, podem ser:

  • Reflutuação;
  • Combate à incêndio e poluição;
  • Remoção de destroços ou derelitos;
  • Salvamento portuário;
  • Salvamento offshore;
  • Salvamento de carga e equipamentos;
  • Limpeza e desobstrução de portos e canais.

Equipe de salvamento

Uma equipe de salvamento é composta por marítimos, mergulhadores especializados, soldadores, mecânicos, engenheiro ou arquiteto naval, e claro um Comandante de Salvamento, ou Capitão de Salvamento, geralmente este encarregado ou líder é um experiente Capitão, com vasta folha de serviços na área.

A equipe tem que estar apta à trabalhar longas jornadas, em condições da qual a tripulação do navio sinistrado não faria, os mergulhadores por exemplo tem que mergulhar em águas geladas, as vezes dentro de tanques cheios de óleo, passar por agulheiros e destroços, realizar soldas em compartimentos inundados, e muitas vezes submersos.

Os marítimos destas equipes são o faz tudo, muitos tem de correr risco escalando costado de navio, conectando amarras e cabos em locais improváveis, tem de operar guinchos e guindastes e mover equipamentos e carga dentro de navios em situação nada agradável.

Esse pessoal não tem tempo à perder com cerimônias, burocracia, ou formalismos, pois o tempo é o maior inimigo da equipe, por isso é comum equipes como estas serem verdadeiros cowboys do mar. Em muitos dos casos, é usado pessoal do próprio local para auxiliar no trabalho, pois ninguém melhor do que mestres de rebocadores do local e marítimos locais para conhecer as peculiaridades da região que equipes estão trabalhando.

Equipamentos

Equipamento de peso tem que ser usado nestes casos, como grandes balsas, diques flutuantes, cábreas gigantes, enormes rebocadores, helicópteros, moto bombas, grandes grupos geradores, bombas enormes para grande capacidade, muitos mangotes especiais, bolsas de flutuação, barreiras de contenção de fluidos, guinchos holofotes, e muitas ferramentas de variados tipos.

Mas o equipamento mais importante, ainda é a equipe e sua engenhosidade.

Dinheiro e desafios

O caso do Cougar Ace

Este navio sofreu uma pane enquanto trocava água de lastro, e por algum motivo os tanques de boreste não esvaziaram, e o navio inclina em alto mar em águas internacionais quando navegava do Japão para os EUA, os 23 tripulantes são resgatados pela Guarda Costeira dos EUA, mas o fato não foi devidamente investigado pois o navio estava fora de jurisdições, e os armadores deram o navio como perdido, apenas aguardando que afundasse para poder receber o prêmio (seguro).

Os 6 primeiros passos

1° -Local que a primeira equipe desembarca usando helicóptero. (era um Agusta HH 65)

2° – Cabos foram usados para escalar o costado do navio

3° – Foi aberta uma porta que da acesso ao convés 9 e foi feito rapel entre centenas de carros.

4° – Foi feita inspeção para constatar o quanto foi inundado, e aberta uma rota de reentrada.

5° – Foi preciso se arrastar ao longo do costado, e escalar escadas, para acessar a popa;

6° – Usaram cabos para descer pela popa, e sair do navio usando um barco de apoio.

Porem o  navio não afunda, mas continua inclinado 60° por boreste, flutuando e se aproximando da costa. Dentro dele 4.709 carros Mazda novos, no valor de 103 milhões de dólares, e óleo pesado, que poderia vazar caso o navio fosse parar na praia, oque causaria um desastre ambiental. Porem a Guarda Costeira não tem meios e nem planos para recuperar o navio. Logo o armador é obrigado à recorrer aos Salvadores, no caso contrataram a TITAN Salvage, uma empresa americana, que tem uma equipe internacional especializada neste tipo de resgate.

Não foi tarefa fácil fazer o navio retornar a sua posição original. Foi preciso vencer correntes, e ventos, água gelada, e distancia da costa e de local com meios e equipamentos. Praticamente tudo chegou por helicóptero, e após a conexão de cabos de reboque o navio foi rebocado para dentro de um golfo com águas seguras e calmas.

1°-Grandes moto bombas à diesel foram colocadas no convés 9 do navio, e começam a bombear água para fora.

2°-Feita a checagem do nível de água no tanque de lastro n° 5 de boreste (em vermelho), para calcular uma estabilidade adequada; começam a encher o tanque de lastro por bombordo (em amarelo).

3°-Foi preciso encher o tanque com 160 toneladas de água para trazer o navio à sua posição original.

Neste caso a pequena equipe completa a missão, mas com alto risco, deixando um saldo de 3 mortos durante a operação.

Oque leva estas pessoas à arriscarem a vida em lugares distantes e inóspitos realizando um tipo de trabalho que muitos classificariam como insano? A resposta é simples, muito dinheiro! Mas para se ganhar este dinheiro é preciso correr muitos riscos, e cada trabalho é um grande desafio, que apenas poucos estão dispostos a encarar.

Lei de salvamento

Um salvamento é composto antes de começar com um “contrato de salvamento”, este contrato pode variar pois pode ser acordado entre as partes como será feito o salvamento o tempo e recursos. Em muitos casos é feito um tipo de contrato chamado de “No cure, No pay”, em outras palavras seria, só recebe se salvar, mas há contratos mais flexíveis da qual mesmo não salvando ou recuperando partes ou um todo, os salvadores recebem uma parte. Em muitos casos os valores são calculados sobre o valor da carga e do navio em separado.

Em alguns casos como por exemplo do car carrier “Cougar Ace”, chegou à 10 milhões de dólares visto poderem recuperar quase todos os carros à bordo com poucos danos. Mas foi necessário abrir um documento chamado de Lloyd’s Open Form agreement”.


O carga geral - Krokus - adernado no golfo de biscaya, o salvamento foi feito pelo Reb oceânico Abelie Bourbon

Raros são os casos que a percentagem sobre o navio e carga salvos chegarem à 50% do valor dos bens; na maioria das vezes é negociado algo entre 25% a 10% do valor.

Existe uma convenção internacional que trata do assunto a mesma foi atualizada em 1989, porem alguns países como a Inglaterra tem sua lei local, que segundo ela o navio e a carga sempre irão pertencer aos donos originais. Pois segundo a Convenção internacional há o “pure salvage” da qual não há qualquer contrato entre o salvador e o dono da carga e navio. Neste caso os valores são decididos após o salvamento por um tribunal, da qual irá julgar de quem é o mérito. Seria uma tipo de pirataria legalizada.

Na foto o M/V Camilla com uma pesada banda à deriva e abandonado, sendo resgatado pela equipe da ITC e TITAN, na costa do Canadá.

Neste tipo de salvamento há dois tipos de mérito; o de alto grau de risco, e o de baixo grau de risco. Isto quer dizer no caso do alto grau de risco, se refere ao nível de dificuldades que a equipe e tripulação encontrou, o fato de expor os tripulantes à tempestades, combate à incêndio, risco iminente de morte zona de guerra, etc. Enquanto na de baixo grau de risco, são salvamentos sem maiores desafios, geralmente em interior de porto ou navios encontrados à deriva em mar aberto. Nos salvamentos de alto grau de risco, é possível chegar à elevados valores do prêmio, geralmente nestes casos as seguradoras é quem fazem o acerto de contas.

Lembrando que a equipe recebe uma parte no prêmio, por isso fazem de tudo ao alcance para cumprir de maneira rápida à tarefa.

por Erik Azevedo