Viajar de veleiro



A maravilha de se viajar de veleiro é que basta que se decida ir para algum lugar, tudo que se tem que fazer é levantar a âncora,içar velas e ir embora.Essa sensação de liberdade é fabulosa,é quase como ter asas e voar livremente,basta bate-las.

Helio Setti Jr.

Tem que ir, ver e sentir!


"...Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu, para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor, e o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o seu próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver..."


Amir Klink


domingo, 8 de janeiro de 2012

Não há limite de idade para se aventurar

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VILFREDO SCHÜRMANN

VILFREDO SCHÜRMANN Economista, palestrante e capitão do veleiro Aysso da família Schürmann, que deu a volta ao mundo duas vezes, de 1984 a 1994 e de 1997 a 2000 (Foto: divulgação)

No final das minhas palestras, sempre abro espaço para perguntas. Duas delas são recorrentes. A primeira é o significado da palavra Aysso, que dá nome a nosso veleiro. Quer dizer formoso, em tupi-guarani.
A segunda é sobre a idade para se lançar a uma aventura, como uma volta ao mundo. Há quem pense que aos 50 anos não dá mais para iniciar um projeto como esse. Aí, conto uma história fascinante – e verdadeira – sobre meu amigo americano Harry Hackel Jr. É um exemplo de como não há idade-limite para quase nada.
Conheci Harry Hackel em Richard Bay, uma pequena cidade ao norte de Durban, na África do Sul, em 1993. Ele tinha barba branca e estava sentado num banquinho preso ao mastro, checando os cabos e as velas. Quando chegou ao topo do mastro, a 15 metros de altura, um francês começou a gritar para que ele descesse, porque era muito perigoso. Ele fez sinal de calma e continou seu trabalho. Quando desceu, o francês e eu fomos conversar com ele.
Harry estava com 78 anos. Aos 56, aposentou-se e começou a reforma do veleiro, de 32 pés de comprimento (9,77 metros), que durou dois anos. Quando o veleiro ficou pronto, ele e a mulher saíram navegando. Foram 11 anos juntos no mar, até que ela teve um câncer de mama e morreu. Ele não parou. Seguiu viajando pelo mundo.
Perguntei como fazia para navegar sozinho. Harry disse que não tinha segredo, só evitava passar por rotas de navios para reduzir o risco de colisões e poder dormir à noite sem ninguém de plantão. Ao escurecer, recolhia todas as velas e pendurava na proa um lampião de querosene grande que emitia uma forte luz. Depois, ia para o interior do veleiro jantar e descansar. Quando amanhecia, preparava o café, subia as velas e seguia viagem. “Só me dou ao direito de uma extravagância: todos os dias tomo um cálice de Martini às 16 horas.” Harry passa o tempo lendo livros de história, poesia e mistérios. Ele me contou que seguiria então para o Cabo das Tormentas (a média de tempestades nesse lugar é uma a cada 36 horas), para a cidade do Cabo e para Portugal. “Li que há umas sardinhas saborosas e bons vinhos por lá.”
Harry deu duas voltas ao mundo, capotou duas vezes na costa de Madagascar e no Japão. A travessia do Japão para San Francisco tinha previsão de durar 60 dias. Com os acidentes, levou 142. Harry tem quatro filhos, nove netos e sete bisnetos. Foi a pessoa mais velha a completar uma circum-navegação. Está com 92 anos, e continua navegando. Quando chegou de sua última volta ao mundo, disse: “Agora estou preocupado, meu veleiro está ficando velho”.

Post da revista Época