Viajar de veleiro



A maravilha de se viajar de veleiro é que basta que se decida ir para algum lugar, tudo que se tem que fazer é levantar a âncora,içar velas e ir embora.Essa sensação de liberdade é fabulosa,é quase como ter asas e voar livremente,basta bate-las.

Helio Setti Jr.

Tem que ir, ver e sentir!


"...Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu, para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor, e o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o seu próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver..."


Amir Klink


segunda-feira, 2 de julho de 2012

E o vento levou

O norte-americano Matt Rutherford crava seu nome entre os grandes velejadores ao dar a volta completa em todo o continente americano

 



O JOVEM E O MAR: Acima Matt posa para autorretrato; à esq., o temido
cabo Horn e, por fim, o barco St.Brendan

O NORTE-AMERICANO MATT RUTHERFORD é daqueles velejadores que sonham alto e voam longe. Em junho do ano passado, subiu em seu barco de 27 pés (8 metros), batizado de St. Brendan, e se lançou oceano afora. Cercado de água por todos os lados, tinha como companheiros apenas os pássaros, os peixes, o céu e um objetivo ambicioso: atravessar, sozinho, a lendária Passagem Noroeste que interliga o oceano Pacífico e Atlântico, no Ártico e, de quebra, se tornar a primeira pessoa do planeta a velejar toda a costa das Américas. Trezentos e nove dias depois, a conquista, encerrada em 18 de abril, colocou um ponto final em um projeto de seis anos e 42.600 quilômetros que cravou o nome de Matt na seleta lista dos grandes velejadores de sua geração.
Nascido há 31 anos, Matt cresceu em Utah, curiosamente um estado dos Estados Unidos sem saída para o mar. Foi somente depois de adulto que começou a viajar em busca de aventuras. “Meu primeiro grande desafio aconteceu aos 20 anos de idade. Peguei minha bike e pedalei durante 100 dias pelo Vietnã, Camboja e Tailândia. Porém o dinheiro que economizei só deu para a passagem de avião. Por isso, dormia em qualquer lugar. Mas conheci cidades, selvas e vilas. Foi incrível”, relembra.
Em 2004, depois de se mudar para Maryland, na costa leste do país, Matt começou a praticar a vela. Em pouco tempo, viu-se imaginando jornadas emocionantes, nas quais poderia conhecer um mundo totalmente novo e surpreendente. A segunda grande viagem levou cinco anos para acontecer. Desta vez, diferentemente da bicicleta, ele precisou se familiarizar com as técnicas de navegação e aprender a lidar com os truques dos oceanos. Ao se sentir seguro, recolheu sua âncora e rumou para a Europa, África e Caribe.
A maior expedição marítima de Matt ainda demoraria alguns bons anos, ao longo dos quais adquiriu mais experiência. Passou a escrever para revistas especializadas no assunto e, aos poucos, consolidou a paixão por tudo o que se relaciona com o mar. “Depois de pequenas expedições, decidi pensar grande e coloquei como meta cruzar sozinho, só com meu barco a vela, a Passagem Noroeste. Inspirei-me nas histórias de grandes lendas desse esporte, e isso me incentivou a tentar um percurso sem paradas. Muitas pessoas riam de mim quando eu lhes contava meus planos”, diz Matt, que se manteve decidido mesmo diante dos olhares mais incrédulos.

Expedições dessa escala muitas vezes demoram anos para acontecer, já que demandam recursos, tempo e uma boa lista de apoiadores. As primeiras dificuldades não abalaram o velejador. Sem conseguir atrair grandes patrocinadores, o aventureiro foi organizando a viagem sozinho, pacientemente. Para economizar dinheiro, Matt viveu em seu barco, aportado em Maryland, pelos 11 meses que antecederam o início do desafio. “Eu comia macarrão instantâneo todos os dias para não gastar”, diz. Apesar do curto orçamento e do barco um tanto modesto, o projeto foi criando vida e se tornando realidade.
Depois de preencher cada espaço vazio de sua embarcação com alimentos e equipamentos fornecidos pelos patrocinadores, Matt zarpou de Annapolis, em Maryland, em 13 de junho de 2011. Os primeiros dias de navegação foram marcados por grandes ventos. Era difícil controlar a ansiedade diante da natureza mostrando toda a sua força, mas ele tentou ver o lado bom: o vento seria seu motor de popa nos próximos meses. “Sem vento, é quase impossível sair do lugar quando se está velejando. Então é importantíssimo estar em sintonia com ele”, conta, explicando como fez para manter a calma. Seguindo o trajeto planejado, rumou primeramente para o extremo norte das Américas. “Era bom estar sozinho. No segundo dia, acionei, sem querer, o dispositivo do extintor de incêndio e sujei o barco todo. E ri de mim mesmo”, relembra.
A caminho da Passagem Noroeste, ao norte do Ártico, grandes icebergs fizeram da paisagem azul um visual deslumbrante, principalmente na baía de Baffin, próximo à Groelândia. “Quando encontrei a primeira montanha de gelo, senti que finalmente caminhava para o desconhecido. Também caiu a ficha de que eu estava totalmente sozinho naquela imensidão branca”, diz o velejador. Ali foi duro conseguir dormir, já que qualquer desatenção poderia levar o pequeno barco ao encontro de icebergs.



E O BARQUINHO VAI: Altos visuais e bons ventos não faltaram na expedição

A PASSAGEM NOROESTE é uma histórica via marítima composta por uma sequência de estreitos no norte da América que permitem a ligação entre o oceano Pacífico e Atlântico. O renomado explorador norueguês Roald Amundsen – que liderou a primeira expedição bem-sucedida a atingir o Polo Sul – atravessou a via pela primeira vez em 1905, com outros seis tripulantes, no veleiro Gjøa. Matt ultrapassou-a perto do 50º dia da expedição. Com o feito, ele quebrou o recorde de menor embarcação que já atravessou o local. “Estar ali, naquele lugar tão remoto e significativo, foi emocionante. Aliás, todos os meus dias no mar foram incríveis. É difícil me acostumar com a terra firme de novo”, diz.
Para se distrair no silêncio do oceano, além do seu Ipod, Matt levou também livros de história. “Sou fascinado por literatura. Então aproveitei o tempo livre para atualizar minha leitura. Levei uma série enorme sobre a queda do império romano. Era uma leitura lenta, por isso veio a calhar.” Depois de uma noite turbulenta ainda próximo à Passagem Noroeste, os ventos eram fortes e a embarcação quase virou. Muita água invadiu a cabine, que possuía um lento sistema de drenagem. “Meus livros estragaram. Perdi o pouco de diversão que tinha.” O mais difícil nestes 309 dias, segundo ele, foi a ausência de outro ser humano com quem conversar. “Olhar para a pessoa com quem você está falando, sabe? Foi dura também a saudade de dormir em uma cama real. Na verdade, de dormir em geral, já que sempre precisava ficar atento a cargueiros, icebergs e rochedos”, explica.
Matt navegou também pelo Alasca, Chile e Brasil. No final de dezembro, ele se viu cara a cara com um dos maiores obstáculos de sua expedição: o cabo Horn, área rochosa que marca o ponto mais meridional do continente sul-americano. Localizado no encontro de três oceanos, o cabo Horn é palco constante de tempestades, com ondulações que chegam a nove metros de altura e poderosos vagalhões. “Depois de 208 dias, lá estava eu diante do perigo real outra vez. Qualquer descuido era um convite para um acidente. O Ano Novo trouxe um vendaval. Achei divertido ver, de novo, a água descendo as escadas do meu barco. Afinal de contas, eu estava lá para passar por experiências assim, né?”
No dia 18 de abril, Matt navegou para o fim da sua viagem. No píer de Annapolis, sua família e moradores da cidade o aguardavam para parabenizá-lo pela conquista, chamando-o de herói. O jornal Washington Post relatou a cena em um artigo especial, no qual o repórter não deixou de notar que Matt fez o discurso de chegada ainda descalço, mostrando as unhas enegrecidas do dedão do pé e balbuciando frases meio desconexas devido ao cansaço e à emoção.
Matt pretende escrever um livro contando todos os detalhes desses dez meses de aventuras. “Também quero organizar outras expedições para os próximos dez anos, principalmente ao Ártico. A verdade é que cheguei aqui sem pensar muito no futuro. Quero que minha vida continue assim, cheia de bons ventos.”

Por Mariana Mesquita
(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de junho de 2012)