Viajar de veleiro



A maravilha de se viajar de veleiro é que basta que se decida ir para algum lugar, tudo que se tem que fazer é levantar a âncora,içar velas e ir embora.Essa sensação de liberdade é fabulosa,é quase como ter asas e voar livremente,basta bate-las.

Helio Setti Jr.

Tem que ir, ver e sentir!


"...Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu, para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor, e o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o seu próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver..."


Amir Klink


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O Resgate do SAMSARA

Reconhecer hérois é fácil.
Eles sempre aparecem para salvar vidas



Ja citei essa frase em um post sobre o resgate do Acauã, e trago ela novamente para dedica-la ao veleiro Luthier e sua tripulação que na hora precisa estavam lá.
Aqui coloco a historia do resgate contada pelo protagonista no seu Blog


"Muitas vezes, iniciamos uma atividade, projeto, viagem, etc…, imaginando um determinado fim, e a coisa toda toma outros rumos. A viagem à vela é mestra nisso. Saímos com um destino, mas chegaremos aonde for possível, e quando der. 
Regatas, a versão esportiva da vela, é uma atividade com começo, meio e fim bem definidos, cheia de regras (não conheço todas) e, principalmente, no caso da oceânica, a única coisa certa é a largada. 
Largamos na REFENO rizados. Após alguns bordos, já estávamos montando a bóia norte, e rumando para Fernando de Noronha. Eu e a Catarina achamos o mar alto, mas parecia que dava para continuar até um outro ponto de decisão definido por nós, próximo a Cabedelo. Chegando lá, decidimos continuar. 
Mais adiante, o mar começou a piorar muito, e rajadas de vento de 30 nós começaram ser frequentes. A Catarina começou a piorar da garganta e eu a ficar muito mareado. Os eventos começaram a ocorrer: barcos mais atrasados em relação a nós começaram a reportar perda de controle do leme, e arribaram para Cabedelo; muitos informavam que seus tripulantes estavam mareados; outros tiveram carrinhos da escota da mestra arrebentados; genoas rasgando; e apareceram os primeiros dois casos de pedido de resgate de tripulante em más condições de saúde, sendo um caso grave. Esses dois últimos pedidos de resgate demandaram uma das embarcações da Marinha. 
O mar aumentou ainda mais, e o vento ficou sustentado em 30 nós. O Luthier ia bem, salvo engano, estávamos em segundo lugar, com somente um “Dufour 405” à nossa frente. A situação do mar e ventos não pareciam ser problema para o Luthier, mas eu já estava ficando sem forças, e a Catarina, cada vez pior da garganta, desenvolveu um quadro febril. Decidimos abandonar a REFENO e rumar para Natal, 40 milhas mais perto do que Fernando de Noronha. 
Assim que acertei a rota para Natal, tudo melhorou, porque ficamos com mar e vento de alheta. Pouco tempo depois que avisamos o navio patrulha da Marinha, de que estávamos abandonando a Regata, fomos chamados no rádio por dois barcos: o trimarã Nativo, então sem mastro, e o veleiro SAMSARA, sem o leme, que quebrou e se perdeu no mar. A Marinha, que estava com um navio socorrendo os tripulantes resgatados, e outro muito adiante, perto de Fernando de Noronha, acionou um outro navio patrulha, que demandou de Natal para socorrer esses dois barcos. 
O Veleiro SAMSARA, um 40 pés de regata (fibra de carbono), então sem leme, com 10
Samsara
tripulantes, dentre eles uma mulher e dois adolescentes, me pediu para fazer ponte de rádio com os navios da Marinha. A essa altura, a única possibilidade foi o SSB. Perguntado pelo operador do navio da Marinha se poderíamos assistir ao Samsara, respondi que sim. 
Não sei de onde arrumamos forças para velejar no rumo para encontrar o SAMSARA, o mesmo da Regata. Voltamos a ter vento aparente de 30 nós, 60°, e ondas de amuras de 3 a 4 metros: o inferno havia retornado. 
Falávamos com o Samsara a cada 30 minutos, pelo VHF, para trocar posições, e em seguida eu as passava (a nossa e do SAMSARA) para o Navio da Marinha, inicialmente pelo SSB, e depois por VHF. 
A cada contato com o SAMSARA, eu percebia que eles estavam mais calmos, provavelmente pela certeza de que pelo menos comunicação, havia. Essa é a mágica do rádio. 
Eles derivavam um minuto para o norte, a cada meia hora. Levamos três horas para chegar até eles, velejando a 6,5 nós, com poucos panos . Quando os avistamos, demos proa ao vento, baixamos velas, ligamos o motor e nos aproximamos para jogar uma retinida com uma pinha em uma das pontas, e dois cabos de seda de 40 metros cada, para amarrar em um cabo de fundeio deles, e dar início ao reboque. 
Consegui jogar a retinida para eles, mas uma onda jogou o Luthier em cima do SAMSARA, e na manobra de evasão, acabamos por tocar os mastros, o que resultou, por sorte, só na perda das birutas do Luthier. Eles não conseguiram atar os cabos a tempo, e a manobra, muito arriscada, foi inútil. 
O comandante do SAMSARA sugeriu que um tripulante dele mergulhasse e nadasse até o Luthier, trazendo um cabo para atar aos meus. Preparei tudo, e passei próximo ao mergulhador a 1,5 nó, velocidade mínima para que eu tivesse governo do Luthier. O mergulhador, por questão de centímetros, não conseguiu pegar o cabo que joguei. 
Não deu, pensei (@#$%¨$$##@@# )! Já tinha um barco à deriva, sem leme, e agora tenho um homem ao mar! 
O mergulhador usava um colete importado dotado de um sistema automático de inflar, e com uma forte luz piscante (strobo). Eram 4:00 hs da manhã, noite ainda. Eu pedi à Catarina que apontasse o tempo todo para o mergulhador e fiz, pela primeira vez a manobra que li nos livros: cheguei a sotavento dele, e quando ele estava perto da popa, cortei o motor, que estava lento, e dei um cavalo de pau no Luthier. O mergulhador ficou posicionado bem à popa do barco, então, joguei a retinida a ele, e o puxei para bordo. Mais uma vez, ainda bem que a popa do Luthier é aberta! 
Depois dessa, decidimos que o Samsara colocaria uma bóia com uma luz atada a um cabo longo, e que eles teriam ainda outro cabo atado a esse para, assim que pegássemos a bóia, eles fossem “dando linha”, para que tivéssemos tempo de atar os cabos de reboque. Foram quatro passadas, até que, finalmente, conseguimos pegar a bóia e atar os cabos. 
Meus cabos de seda elásticos, e os cabos de âncora do Samsara, juntos, davam uns cem metros; a bóia que ficou no meio deles foi muito útil. 
Tudo certo, respiramos fundo e iniciamos a operação. Adotei um rumo direto para Natal e coloquei o motor a 2000 giros, o que nos permitia andar a 3 nós de velocidade. A popa do SAMSARA balançava para os lados, descontrolada. Eles lançaram cabos pela popa com uma porção de tralhas, inclusive esses galões plásticos para combustíveis, que funcionaram muito bem, estabilizando a popa. Dessa forma, com o cabo sempre esticado, sem tranco, e com o motor na temperatura normal, iniciamos os turnos no Luthier. Nessa hora, é que o anjo que eu tenho a bordo (Catarina) começou a trabalhar: fez os turnos com tripulante do Samsara a bordo, porque eu, depois que tudo estava bem, voltei a marear fortemente. 
Foram 60 milhas de percurso até Natal, totalizando 20 horas, tempo para eu pensar em como entrar na Barra do Rio Potengi, em Natal. 
Depois de algum tempo de percurso, percebi que o SAMSARA derivava para bombordo, o esperado, porque as ondas e vento vinham de SE, e a corrente também. A 5 milhas da barra, perguntei ao navio da Marinha, que já nos acompanhava, se eles também percebiam essa tendência do Samsara. Confirmado. Resolvemos encurtar o cabo de reboque, ficamos com uns 40 a 50 metros. 
Adotei um rumo mais para o sul, de forma a fazer uma curva de aproximação que deixasse o Samsara a meu boreste na entrada do rio, e então, após eu passar, seria só controlar a velocidade para que ele derivasse mais ou menos para bombordo, e também passasse bem no meio do canal. O perigo são as pedras ao norte marcadas pela bóia 2. 
Com cuidado, e a 3 nós de velocidade, o Luthier entrou bem no meio do canal. Fui acelerando para diminuir a deriva do SAMSARA e, a 4,5 nós, o SAMSARA entrou bem no meio do canal. Fiquei muito contente, porque as horas em que eu fiquei planejando essa entrada valeram a pena: tudo ocorreu como pensado. 
Dentro do rio, a lancha do prático se posicionou a contra-bordo do SAMSARA, e largamos os cabos de reboque. 
A experiência dos tripulantes do SAMSARA (o que estava a bordo do Luthier foi da equipe de terra do Brasil 1), o acompanhamento da Marinha pelo rádio, e a robustez do Luthier, fizeram com que tudo terminasse bem, sem maiores prejuízos, e, principalmente, sem feridos. 
Fora a primeira tentativa de lançar os cabos, muito arriscada, todas as outras operações foram bem pensadas, por todos nós, dos dois barcos, realizadas com calma, e sem heroísmos. 
O Mar às vezes é rude, judia, mas aproxima as pessoas. Estou feliz de ter feito parte deste resgate. Outras REFENOS virão."
          Dorival